quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Tema e variações 1

Tema e Variações

Dificil é conviver nos dias de hoje com tanta diversidade. Hoje quero abordar a diversidade sonora. Meus sensíveis ouvidos são obrigados a conviver com todos os tipos de sons, desde um aspirador de pó do vizinho que produz um super ultrasom, a máquina de lavar/limpar piso ultra barulhenta e assim por diante. Sou do tempo que se usava vassoura para tirar folhas do chão e se usava a famosa “feiticeira” para tirar o pó. Um silêncio só.
Hoje sou obrigado a conviver com sirene de ambulancia, de bombeiro e de policia, com “som” de escapamento de moto ou de carro “envenenado”, com celular em cinema, teatro e restaurante, com gargalhadas e palavrões o tempo inteiro.
A sensibilidade do ouvido é medida por decibéis. Mesmo os mais baixos podem ser agressivos e desconfortáveis. Para mim, uma musica de rock ou axé é pura agressão, mesmo bem baixinha. Uma voz de taquara rachada tambem é agressiva aos meus ouvidos, assim como o som produzido por macaquinhos que ficam pendurados nas arvores do meu jardim. Falando em jardim, estou acostumado a acordar com o canto das maritacas, dos sabiás e dos bem te vis. Os ouvidos agradecem.
Durante o dia, ouço um pouco de musica erudita como as canções de Mahler, de Schubert, ou mesmo as poesias sonoras de Tom jobim. Tudo bem baixinho para deixar o pensamento fluir e encontrar uma paz perdida no tempo, na juventude e na história. Ainda acho que o silencio vale ouro. O resto chamo de interferência.

Outro dia, no taxi ouvi uma musica (pelo menos dizem que é isso) onde o tema principal era:
Ta rindo é?
Ah, recebi um torpedo da telefonia no meu celular prometendo desconto às três da manhã se eu puder falar. Mas de madrugada, quem vai me atender, quem vai me ligar? Eu heim!
(E era com a Ana Carolina, musa da atual juventude!!!)

Em seguida, no mesmo taxi ouvi:
Porque não eu?
Quando ela cai no sofá so far away.....

Pergunto: onde está a criatividade destes compositores, ou intérpretes?
Onde estão as caracteristicas típicas do choro pelo amor perdido, da saudade, da tristeza tão caracteristicas das poesias, das belas canções eruditas, das marchinhas, dos chorinhos  e até da bossa nova?

Pois é, o tempo se foi, e preciso me deitar no sofáraway e ficar no celular de madrugada para continuar antenado com a criançada de hoje. O Schubert e Mahler já eram e ficam na saudade.
Para quem quiser:

Ou mesmo de Strauss “A primavera” das quarto últimas canções:

Ou mesmo o canto do Bem te vi:

Querendo ainda tem:
http://www.youtube.com/watch?v=7DclMYmiXdo&feature=player_detailpage

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O golfinho, a alegria e o sonho


Tenho uma amiga que sonhou que um dia, passeando em Londres,  viu um golfinho nadando no Rio Thames, em frente a um prédio da Mercedes Benz, bem no centro financeiro da cidade.  Só poderia ser sonho, pois seria coisa de português encontrar um golfinho no rio, numa cidade como Londres.
Mas falando em sonhos, esta viagem por Zurique, Berlim e Londres fica na memória como sonhos. O verão europeu esquentou, fez calor e frio ao mesmo tempo, exibiu as flores e os verdes das árvores e diminuiu as roupas e sapatos. Andamos muito, vimos cenários bonitos e outros nem tanto. Muita pichação em todo lugar, e mesmo em monumentos e esculturas. É assim no mundo todo. É a linguagem mundial, coisa de internet, You Tube e iPod. Individualidade.
A alegria vem de Schiller, poeta alemão, que Beethoven incluiu na nona sinfonia como sendo a ODE À ALEGRIA. Em alemão: ODE AN DIE FREUDE.
Tive a graça, se é assim que se pode dizer, de assistir no último dia, como encerramento de mais uma viagem, a nona sinfonia ao vivo e a cores em Zurique, com a orquestra da Tonhalle, com Kurt Masur. Foi realmente uma alegria, cheia de conteúdo e de esperança. Todos foram aplaudidos (de pé) por bem mais de 10 minutos até o maestro fazer um tchauzinho e jogar beijos para a plateia.
A alegria.
O fato da gente acordar, se levantar e sair, tem um aspecto de alegria. A esforço que se faz para sair do estado de sono para ficar alerta e enfrentar o dia que começa, tem uma ponta de alegria. É a alegria de viver, de alguma maneira ser feliz e de ficar em paz. Todos temos a obrigação de ter alegria em nossas vidas. Se não a temos precisamos procurar onde ela está, pois ela existe e é tão boa.
O sonho.
Esta é a liberdade que a gente não controla. O sonho flutua na nossa mente, de um lado para outro, sem pé nem cabeça e sem explicação. É a fantasia pura. Se é a purgação de fatos que existiram ou se tem simbolismos, não vem ao caso os motivos. Estou vendo pela liberdade sem amarras.
Sonhar é bom, leva a gente a uma distancia, onde se pode ver golfinhos no rio Thames ou mesmo sentir a alegria que Schiller descreveu na Ode à Alegria.
O golfinho.
O golfinho sou eu, que sonha em estar livre, nadando pelos rios e mares do mundo ouvindo a sinfonia de Beethoven e sentido uma tremenda alegria.

Se tiverem um tempinho, assistam a este vídeo:


quinta-feira, 16 de junho de 2011

A nuvem sobre Berlim


Como tatus e fuinhas, fomos descobrir Berlim pelos tuneis do metro. Norte, sul, leste e oeste.
A menção de leste e oeste, nesta cidade é um enrosco só. Isto porque a guerra fria dos anos 50 e 60 fizeram com que os russos dividissem a cidade pelo meio, através de um muro. Não tinha ninguém que queria ir do oeste para o leste, mas do leste para o oeste sim, tinha muita gente querendo ir. E os soviéticos atiravam sem dó para matar quem tentasse passar para o outro lado. Mas seriam soviéticos? Ou os próprios alemães convertidos pela propaganda marxista?
Vi cartazes da época que diziam que alemão não mata alemão, mesmo assim, os soldados do tal muro eram alemães.
Falando em alemães, saímos numa estação do metro que dava num novo “Memorial do terror”. Um espaço aberto, onde debaixo de ruinas havia uma exposição dos campos de extermínio de judeus. E sempre a mensagem de “nunca esquecer”.
Fui ao Museu Judaico, onde tem a história dos judeus desde os tempos antigos, seus costumes e hábitos. Claro que um maior espaço é dedicado ao Holocausto, e a mensagem de sempre que nunca devemos esquecer.

Numa andança pela cidade, de noite, fui parar numa antiga estação de trem chamada ANHALTER. Só tinha uma  parte da fachada, e um grande espaço livre na parte dos fundos. Tinha uma placa explicativa a respeito. E foi aí que vi uma nuvem cinza em cima da cidade. Uma nuvem escura, densa, daquelas que ficam para sempre. Um tipo de pesadelo de força máxima.

A placa dizia o seguinte:
Foi nesta estação que os nazistas embarcavam os judeus para os campos de concentração e posteriormente para os campos de extermínio. Os judeus chegavam na estação de ônibus ou em caminhões,  com suas pequenas malas, em grupos  vindos de vários lugares e eram fortemente escoltados por guardas armados, e embarcados em trem de carga. As pessoas que estavam na estação indo ou vindo de algum lugar, viam o que acontecia e nada faziam.
Dá para entender o “não fazer nada” pois eram muitos guardas armados. Mas que eles sabiam , sabiam o que acontecia. O povo na época era conivente sim.

Por um instante minha mente fugiu e vi um comboio destas pessoas, submissas, mal vestidas, doentes e tristes sendo deslocadas das suas casas, do seu País, para ir não se sabe onde. Consegui ver o povo olhando este comboio e silenciar a medida que eles passavam. Consegui ver meu avô e avó paternos no meio do comboio, desesperados olhando para mim e eu nada pude fazer.

Podem unificar Berlim, como fizeram depois da queda do muro, podem reconstruir casas, igrejas e monumentos. Podem modernizar a cidade com prédios monumentais de arquitetura ultra moderna.
Podem fazer de tudo, mas sempre vai pairar no ar uma nuvem cinza chumbo, pesada e carregada de uma poeira que gruda na memória do ser humano.



domingo, 5 de junho de 2011

Emmanuel Pahud



Desde 2006, nas salas de concerto, tenho procurado ver este flautista. Já o vi em Luzern com a pianista Helène Grimaud e nos concertos digitais da Berliner Philharmoniker.
Pahud é um excelente flautista, com olhar cínico, jeito de bon vivant e extremamente seguro de si mesmo. Assistimos ontem em Zurique a um concerto com orquestra de câmara numa obra de Mozart para flauta.
Sentei na primeira fileira e fiquei com um lenço enxugando a minha babação. Estava a 2 metros de distancia dele e fiquei em estado de graça de poder ouvir a flauta. Havia momentos  em que eu não via a orquestra e nem o publico e fiquei com certeza que ele estava tocando só para mim. Uma ilusão boa de sentir.
No intervalo, saí correndo para comprar um CD das obras de Mozart para flauta, rasguei o celofane rapidinho e me postei na fila para um autógrafo.  Quando ele apareceu no corredor, me pareceu que ele diminuiu de tamanho, ficou baixinho e afinal  era normal.
A minha impressão  era que ele fosse alto, uns 2 metros de altura,  forte e gordinho e bem apessoado. Eis que de repente aparece um baixinho mas cheio de charme.
Consegui não só um autógrafo no CD, mas um monte de fotografias dele, algumas posando comigo.
Falei com ele!! Ele me contou dos próximos concertos, que virá ao Brasil no ano que vem, e dos planos dele na Berliner onde ele é “Principal Flautist". Apresentou os filhos que estavam lá com ele Tristan e Gregoire. Pediu que eu organizasse uma recepção para ele em São Paulo, e que ele faria um concerto beneficente que eu poderia organizar.
Saí de lá encantado com ele e o que ele representa para a música, e feliz com a ilusão que ele estava tocando só para mim, e que eu iria organizar a vida dele no Brasil. Pura ilusão, mas uma delicia de sensação.


   Como toda história bonita, tem um lado triste. Ele cria os filhos sozinho e o mais velho tem uma  leve sindrome de Down. É um menino bonito, doce mas com o olhar longe e curioso.


Vejam:  http://www.youtube.com/watch?v=w6HEn0Zu5tI&feature=related

domingo, 29 de maio de 2011

Poesia


Hoje tenho uma poesia triste para colocar no meu blog.
Goethe escreveu  e Schubert musicou este poema por volta de 1815. Vale a pena ler e depois ouvir no YOUTUBE uma interpretação magnífica de Dietrich Fischer-Dieskau.
Precisa levar em conta que na verdade são 4 personagens que o poema e o cantor representam: 1- o narrador, 2 –o  pai, 3 - o filho, 4 - o tal Rei dos Elfos.
O piano dá o tom da cavalgada, do mistérrio e do terror, e o cantor muda o tom de voz a cada personagem que interpreta.
Na verdade é um pequeno poema de amor e tragédia que nos faz pensar no nosso dia a dia, na fragilidade da vida e no amor que se tem ao próximo.
Ouçam, reflitam e  vivenciem este poema.



Quem cavalga tão tarde pela noite e pelo vento?
É um pai com seu filho.
Ele leva a criança em seus braços,
Ele o segura firme, ele o mantém aquecido.

"Meu filho, por que esconde tanto seu rosto?"
"Não vê, pai, o Rei dos Elfos?
O Rei dos Elfos com sua coroa e manto?"
"Meu filho... É apenas um filete de névoa."

"Você, criança querida, venha comigo
Tantos jogos divertidos jogaremos um com outro
Flores coloridas estão na praia,
E minha mãe tem para você vestes douradas."

"Meu pai, meu pai, não consegue ouvir
O que o Rei dos Elfos sorrateiramente me disse?"
"Fique calmo, fique calmo, meu filho,
 era apenas o vento passando pelas folhas secas."

“Belo garoto, vem comigo, não quer vir?

Minhas filhas cuidarão muito bem de você 

Minhas filhas estarão ao seu lado à noite

E vão dançar e cantar até você dormir.”

"Meu pai, meu pai, não consegue ver?
As filhas do Rei dos Elfos naquele
tenebroso lugar?"
"Meu filho, meu filho, bem sei o que vejo:
Apenas os velhos e cinzentos salgueiros."

"Eu te amo, sua beleza me encanta,
Mas, caso não queira vir por bem, então usarei a força!"
"Meu pai, meu pai, ele me pegou!
O Rei dos Elfos está me machucando!"

O pai, a tremer, apressa a cavalgada.
Ele segura em seus braços o menino a gemer.
Mas, com esforço e angustia chega em sua morada,
Mas em seu braços  a criança estava morta.

http://www.youtube.com/watch?v=5XP5RP6OEJI

terça-feira, 24 de maio de 2011

ConSerto


CONSERTO
Estive outro dia na Sala São Paulo para assistir a um conCerto de câmara.
A execução foi magnífica e  o conCerto bem agradável.
Durante o conCerto, a imaginação da gente viaja. E viaja longe. A obra em questão era difícil de assimilar, o que facilitava a viagem ser mais longa.
Fui até o Monte das Caveiras em Jerusalém, onde vi uma cruz no alto do tal monte. Fazia calor e frio ao mesmo tempo e sol e chuva também. Acho que a música me deixava abstrato.
Cheguei  um pouco mais perto da cruz e vi que tinha um movimento de pessoas ao redor. Vi uma senhora grande e baixinha vestida de preto se debelando com umas 5 pessoas. Estavam querendo crucificá-la. Ela era a única a falar, gritar e se contorcer enquanto os outros em silencio absoluto forçavam-na em direção a cruz.
De longe  vi que ela carregava uma bolsa enorme e dava bolsadas em todos.
De repente notei que eu estava segurando um braço dela e encaminhando para a cruz. Me deram um prego enorme, um martelo e percebi que era eu que tinha que pregar esta mulher na cruz.
Os instrumento musicais deram um intervalo, e quando olhei para traz, a mulher que eu iria crucificar estava por acaso bem atrás de mim, abrindo e fechando a bolsa o tempo todo, tossindo na minha nuca, abrindo o celofane de uma bala e depois brincando com a embalagem, e assim por diante.
A mulher em Jerusalém, no Monte das Caveiras era ela, e eu teria que crucificá-la. E faria com prazer, pois era o que ela merecia naquele momento.
Mas a história que queria contar vai além das Caveiras. Vai  parar nas favelas brasileiras.
A segunda parte do conCerto era forte, agressiva, tumultuada, com os instrumentos tocando ao mesmo tempo em total dissonância. Me senti no meio de um tiroteio na favela da Rocinha, tentando defender a Gisele Bündchen. Foi difícil e quase não consegui. Tivemos que sair por uma porta de emergência, subir escadas no escuro, sair pelo saguão do palácio e quando achei que finalmente estávamos salvos, havia um homem alto, jovem, fardado  cheio de insígnias e sem paletó mas estava com uma arma de grosso calibre na cintura.
A musica me levou para longe, mas não tão longe de mim, na primeira fila da Sala São Paulo, havia um homem, alto, jovem, fardado cheio de insígnias e sem paletó que de fato estava com a tal arma na cintura, a vista de todos.

Concerto é com c ou com s?
Nós assistimos a um conCerto, mas a Sala São Paulo, a Sociedade de Cultura Artística e o Governo do Estado precisam é de um bom conSerto no que se refere a entrar com arma de fogo num teatro ou sala de conCertos .

domingo, 15 de maio de 2011

Pichadores 2


Na distinção que quero fazer, aparecem 3 categorias na comunicação da pichação. Na verdade toda pichaçãoo, seja artística ou não tem como finalidade a comunicação.
Então vamos lá.
A primeira seria a comunicação suja. Uma falta de talento,  raiva, angustia e uma vontade de destruir o que não é dele. Categoria:  PICHADOR ANARQUISTA . Não só de estragar muros, portas,  fachadas mas estragar e sujar monumentos, pedras, mármores, antiguidades e propositalmente destruir o que existe. É o protesto puro e simples. Nesta categoria entram as gangues, competições e recados.

A segunda  seria da comunicação visual.  Aparece o talento e a vontade de aparecer, ser celebridade, ser conhecido. Categoria: PICHADOR ARTISTA FRUSTRADO. São graffiti em muros ou espaços públicos cuja finalidade seria de comunicar um talento,  como os efeitos em 3D, ou os que tentam mostrar talento mas acabam destruindo o espaço publico e privado. Seria como um objeto enferrujado.

A terceira  seria a da comunicação artística.  Esta tem como intenção de “embelezar” um espaço, decorar, mas sempre com o intuito de aparecer, se mostrar e se vender. Não tem protesto. Categoria: GAFITEIRO.
Aparecem os Alex Vallauris, o Cobra, que entre muitos trabalhos fez o da 23 de maio, e outros artistas.  Trabalham de graça para obter trabalho pago, exposição ou modismo de pintarem paredes de casas particulares.

Recomendo leitura de um post: OUTRAS PALAVRAS, um artigo de CAROLINA GUTIERREZ: Graffiti, arte de rua, poesia e protesto ( muito melhor e mais cientifico que o meu)  http://www.outraspalavras.net/2010/09/11/graffiti-arte-de-rua-poesia-protesto/